quarta-feira, 10 de abril de 2019

Esqueça os rótulos se quiser ser feliz


Uma situação que sempre me incomodou, desde que ingressei no mercado de trabalho ainda como estagiária, é a necessidade que algumas pessoas e empresas têm de rotular os indivíduos. Você é economista, não é do campo das ideias. Você é do marketing, não deve saber se organizar. Você é secretária,  não entende de gestão. 


Depois de aplicar dezenas de testes e avaliações comportamentais ao longo da minha vida é possível dizer que sou uma pessoa altamente dinâmica, criativa, movida por resultados, que valoriza a liberdade e flexibilidade - pelo menos é o que acusam os resultados obtidos e que faz muito sentido para mim. Nunca me encaixei em estruturas engessadas, conservadoras e com rotina. Gosto de movimento, de improviso, de novidades e de muita dinâmica. Tenho pavor a morosidade, o que contribuiu para que me conectasse muito bem aos executivos mais energéticos, dinâmicos e exigentes. A normose nunca foi a minha praia e entendo essa característica como questão de perfil. Conheço diversas pessoas que odiariam viver as experiências profissionais que vivi e vivo. 

Olhar para a minha trajetória e "ter que" definir onde eu me encaixo me incomoda profundamente porque, sem nenhuma soberba ou arrogância, eu faço muitas coisas muito bem. Logo, dizer que sou apenas Secretária Executiva ou administradora ou palestrante ou instrutora, ou empreendedora, ou professora, ou trainer de carreira, ou parecerista me traz muito desconforto, porque me vejo fazendo todas essas atividades e o melhor com muito prazer. 

Por algum motivo, nos disseram - não faço ideia quem - que deveríamos  escolher um único caminho a seguir. Leia-se decidir por uma única carreira. Se por acaso decidisse desenvolver outras habilidades seriam hobbies e não necessariamente sua profissão, seria talvez um plano B. 

E assim, nos acostumamos a viver dentro de uma caixa, embora o jargão "pensar fora da caixa" queira nos provar o contrário. O que é uma mentira. Nós somos condicionados a pensar sim dentro de uma caixa.

Certa vez, atuando como Secretária Executiva, em uma renomada empresa, um executivo que assessorava me solicitou que preparasse uma apresentação para alguns executivos cujo objetivo era apresentar resultados esperados, indicadores e melhores práticas de atuação que corroborassem com o negócio da empresa. Passei dias preparando esse material, colhendo informações, alinhando as expectativas do meu Diretor e ao terminar a apresentação, para aproximadamente 15 gestores, um diretor de outra área soltou em tom de piada e deboche o seguinte: "Simara, então quer dizer que agora você está realizando treinamento para os gestores?". 

Ficou evidente para mim, naquela fala, o que aquele executivo pensava dos profissionais de Secretariado da empresa. Me senti profundamente desrespeitada e compartilhei a situação com o meu gestor, que tentando não potencializar o assunto apenas disse: "releve, fulano é um babaca. Deixa pra lá". 

A questão é, quantos "babacas" estão a solta por aí com ou sem crachá de gestor anulando e sabotando os talentos das pessoas? Ouve-se continuamente dizer "precisamos de profissionais que pensem fora da caixa", "Buscamos pessoas criativas", "com visão sistêmica", o que em determinadas situações não passa de discurso raso, demagogo, formado por tendências e sem fundamento algum. 

O que eu quero dizer com tudo isso é que precisamos ter cuidado com as histórias que nos contam sobre nosso potencial e capacidade. 

Já recebi muitos feedback ao longo da minha vida. Muitos transformadores outros desastrosos e que não fizeram o menor sentido. Se eu tivesse acreditado em tudo que me disseram certamente "estaria contente, porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável, e ganho quatro mil cruzeiros Por mês". (Raul Seixas).

Saiba que é possível ser bom em muitas coisas, trabalhar com aquilo que você gosta e ser bem remunerado por isso. O segredo está em encontrar os parceiros certos de jornada. 

Para quem não conhece ou não lembra da música citada acima, segue a letra. 



Ouro de Tolo

Raul Seixas


Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou um dito cidadão respeitável

E ganho quatro mil cruzeiros

Por mês


Eu devia agradecer ao Senhor

Por ter tido sucesso

Na vida como artista

Eu devia estar feliz

Porque consegui comprar

Um Corcel 73


Eu devia estar alegre

E satisfeito

Por morar em Ipanema

Depois de ter passado fome

Por dois anos

Aqui na Cidade Maravilhosa


Ah!

Eu devia estar sorrindo

E orgulhoso

Por ter finalmente vencido na vida

Mas eu acho isso uma grande piada

E um tanto quanto perigosa


Eu devia estar contente

Por ter conseguido

Tudo o que eu quis

Mas confesso abestalhado

Que eu estou decepcionado


Porque foi tão fácil conseguir

E agora eu me pergunto "E daí?"

Eu tenho uma porção

De coisas grandes pra conquistar

E eu não posso ficar aí parado


Eu devia estar feliz pelo Senhor

Ter me concedido o domingo

Pra ir com a família

No Jardim Zoológico

Dar pipoca aos macacos


Ah!

Mas que sujeito chato sou eu

Que não acha nada engraçado

Macaco, praia, carro

Jornal, tobogã

Eu acho tudo isso um saco


É você olhar no espelho

Se sentir

Um grandessíssimo idiota

Saber que é humano

Ridículo, limitado

Que só usa dez por cento

De sua cabeça animal


E você ainda acredita

Que é um doutor

Padre ou policial

Que está contribuindo

Com sua parte

Para o nosso belo

Quadro social


Eu é que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada

Cheia de dentes

Esperando a morte chegar


Porque longe das cercas

Embandeiradas

Que separam quintais

No cume calmo

Do meu olho que vê

Assenta a sombra sonora

De um disco voador


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Não é frescura



Há muitos anos li em um dos meus livros favoritos - Yoga para Nervosos - do brilhante Prof. Hermógenes, que quando um individuo adoece, adoece todo. É um equivoco considerar uma gripe apenas um mal físico. 

Podemos todos nos perguntar como uma pessoa que tem tudo ou não tem "problemas" pode sofrer de uma doença avassaladora como a depressão. Eu pouco sabia sobre depressão até receber o diagnostico da minha mãe, a última pessoa que imaginaria ser tomada por esta "coisa". A principio, relutei acreditar que uma pessoa tão forte e energética pudesse ser dominada por uma doença, que ao meu ver, estava muito relacionada à introspecção e marasmo. 

Após o diagnostico, assumi alguns posicionamentos frente à minha vida pessoal e uma das decisões foi reduzir minha carga de trabalho e me dedicar ao problema, que desejo seja passageiro. Tenho enfrentado este desafio sem a menor cerimônia e sem reservas, o que tem contribuído para que receba dezenas de mensagens de amigos confidenciando e principalmente se solidarizando com a situação da minha mãe. 

Simara, o que tem a ver a depressão da sua mãe com o blog e o Secretariado? Grande parte das mensagens que carinhosamente tenho recebido são de amigos relacionados ao Secretariado compartilhando comigo a sua dor . "Eu também tenho depressão" / "eu já tive depressão". 

Sabe quando você fica perplexa frente à algumas informações, ao ponto de demorar dias para digerir? Como assim fulano tem depressão e eu nunca percebi?

O que tenho aprendido, na minha pequena caminhada de aprendizado, é que a depressão é uma doença silenciosa e solitária. "O que vão pensar de mim", "Se descobrirem no trabalho que tenho depressão posso ser demitida (o)", "Vão ter pena de mim". Dentre tantas teorias, alguns, valendo-se de conhecimentos rasos retirados de experiências pessoais, afirmam ser frescura, falta de uma surra, outros garantem ser o mal do século ou mesmo falta de Deus na vida. Olhando de dentro, tenho a sensação que somos todos, e me incluo, ignorantes defendendo um apanhado de teorias. 

Por isso, quem convive com a pessoa acometida pela doença, precisa entender que a depressão não é frescura e exige sim cuidados, atenção e tratamento, sobretudo porque a doença pode gerar um grande sofrimento e o comprometimento de vários âmbitos da vida, como profissional, familiar e social. É importante entender que a pessoa não está doente porque quer e não é forçando-a fazer exercícios ou manter um estilo de vida que o outro entende saudável que vai resolver.

Sigo essa caminhada buscando entender alguns porquês, com o coração aberto e sendo solidária, mas principalmente mantenho a consciência do não-julgamento, buscando sempre uma comunicação não-violenta, porque mais eficiente que agredir é a atitude de benevolência, que significa querer o bem de todos os envolvidos, reconhecendo a vulnerabilidade e acolhendo o processo de cura de cada individuo. 

Talvez você possa ajudar com uma palavra, com um gesto ou talvez não possa ajudar. Seja como for, depressão pode ser tudo, menos frescura.

Com carinho, 

Simara Rodrigues

P.S. Em complemento, compartilho depoimento, emocionante, do Jornalista Ricardo Boechat, alertando sobre a gravidade doença.

DEPOIMENTO BOECHAT


segunda-feira, 1 de abril de 2019

No pain, no gain?




Por muitos anos eu vivi a máxima do "No Pain, no gain" e a partir das crenças de toda a minha ancestralidade eu acreditei verdadeiramente que grandes conquistas exigiam muito esforço e para alcançar nossos sonhos era necessário muito sacrifício. 

Fazer parte da geração X - que cresceu em meio a escassez, dentro de um panorama conturbado da economia, em que diversas são as tentativas de reformas monetárias e a adoção de planos econômicos, contribuiu para a construção de padrões limitantes da minha família. 

Viver com a necessidade de armazenar e estocar alimentos, dada as incertezas do país foi, sem dúvida, desafiador. Imagine que os produtos sumiam das prateleiras dos supermercados e eram comprados com ágio no mercado paralelo. A máquina de remarcar preços tornou-se um ícone desse período. Para os economistas a década de 80 foi considerada a década perdida, sobretudo pela insuficiência de recursos e renda per capita estagnada. 

Logo, ter um emprego com carteira assinada e mante-la com um único empregador era motivo de orgulho e boa reputação. Assim, Cresci ouvindo a minha mãe dizer:

"precisa trabalhar muito para conseguir as coisas. Viver não é fácil"
"Tem que trabalhar muito e juntar dinheiro, tem que economizar". 
"Dinheiro não dá em árvore, tem que se esforçar". 

Conselhos que ela aplicava trabalhando insanamente das 6h às 23h, um padrão que inconscientemente repliquei por muitos anos na minha vida. 

Aos poucos fui percebendo que essa teoria do "sem dor, sem ganho" fazia sentido para ela, considerando a falta de oportunidade, a escassez de recursos, as diferenças sociais, que eram gritantes e todo o contexto politico-econômico do país naquela época. 

A partir do momento que você percebe que uma crença te limita você é capaz de Ressignificar toda a sua jornada, reprogramando seu cérebro para novos padrões mentais. E o que você ganha com isso? 

No meu caso tenho aprendido que não é a intensidade e quantidade de horas de trabalho que protagoniza o meu sucesso e felicidade, mas é o foco, dedicação e comprometimento que geram os melhores resultados. As conquistas não precisam ser sofridas, o sucesso não exige dor, exige compromisso e consciência. 

Por muito tempo eu acreditei que foi o meu trabalho exaustivo que contribuiu para a minha realização pessoal e profissional. Hoje compreendo que o segredo para o meu sucesso sempre esteve no meu coração e no meu objetivo. Não tem essa de sofrer para merecer. Merecimento tem muito mais a ver com confiar em si e seguir a sua intuição. 

Portanto, se você deseja viver uma vida com propósito comece por observar quais são os seus pensamentos e comportamentos e que resultados eles têm gerado. Se entender que é preciso ajustar a rota don't worry, be happy :) 

Um abraço, 

Simara Rodrigues