segunda-feira, 9 de abril de 2018

O dia em que me reconheci sendo uma pessoa estúpida




Houve um tempo em que era uma verdadeira workholic, daquelas que certamente se estivesse infartando faria algumas ligações ou tomaria algumas providências antes de ir para o hospital. E engana-se quem pensa que tenho orgulho disso. É deprimente quando você se reconhece sendo uma pessoa estúpida, ao mesmo tempo que é libertador porque te possibilita a mudança. 


Já cometi muitos erros ao longo da minha carreira. O que está tudo bem, porque errar faz parte do processo de aprendizado. Afinal, parafraseando Theodore Roosevelt "O único homem que nunca comete erros é aquele que nunca faz coisa alguma". 

O meu day 1 - o dia que me reconheci sendo uma pessoa estúpida - aconteceu num dia como todos os outros em que era sugada pela exaustiva e agitada agenda de atividades e deveria deixar meu filho na escola antes de ir para o trabalho. 

Nesta época eu era puro stress. Uma bomba relógio prestes a explodir. Trabalhava incansavelmente até 23h, praticamente todos os dias, incluindo sábado e domingo, e quando não estava no trabalho, estava em Happy Hour corporativo, reuniões de Networking e compromissos muitas vezes sem sentido.

Foi então que me aproximando do prédio que trabalhava olhei para o banco de trás do carro e lá estava meu filho quietinho, tranquilo. E imediatamente com a voz alterada eu disse: Ikaro, eu esqueci de deixar você na escola e você não falou nada? Ele simplesmente me olhou, com um ar surpreso e disse: mãe achei que você iria em outro lugar antes de me deixar. Você vive correndo feito uma louca. Meu filho tinha 10 anos quando isso aconteceu.

Voltei todo o percurso em silêncio e o deixei na escola com um nó na garganta, me segurando para não chorar. Estava envergonhada. 

Assim que deixei meu filho na escola, fechei a porta do carro e cai aos prantos. Chorei, chorei e chorei. Até esgotar. Eu estava exausta em "ter" que ser a mulher maravilha, a sra. faz tudo, a forte e incansável. Frustrada, eu pensava nos motivos de estar fazendo aquilo comigo. Até que ponto valia a pena trabalhar tanto e não ter tempo pra mais nada? Essa foi uma das inúmeras vezes que me senti um fracasso como mulher, profissional, filha e mãe. 

O que tenho aprendido, ao longo da minha jornada, é que estar ocupada não significa que estou sendo eficiente e produtiva. Vivemos uma cultura cada vez mais conectada e acelerada, transformando o “estar ocupado” em algo muito valorizado dentro do mercado social. Acontece que ser produtivo significa ser consciente. 

Uma leitura que contribuiu para a minha mudança de mindset foi o livro "Essencialismo" do autor Greg McKeown, que explica a diferença entre o desnecessário e o indispensável. 

Ao longo dos anos tenho revisado minhas prioridades, aquilo que realmente está conectado ao estilo de vida que eu escolhi e gradativamente tenho desacelerado. Hoje, consigo me desconectar do trabalho nos finais de semana e feriado, e sei fazer concessões. Consigo dizer não para muitos compromissos sem sentido. E o mais importante, consigo estar de corpo e alma com a minha família. 

É maravilhoso poder conversar com o meu filho, sem ter que conferir o relógio ou ser interrompida por uma ligação. No meu whatsApp a mensagem é bem objetiva: respondo quando puder. Meus e-mails acesso apenas em horários específicos e priorizo cada demanda. 

Ainda há muito que aprender, deixar ir alguns "ladrões" de tempo. Seja como for, hoje consigo avaliar situações que só massageiam o ego, dão status ou são perda de energia. É preciso fazer sentido, pois "Se não estabelecermos prioridades, alguém fará isso por nós" como destaca Greg McKeown. 

Prestes a completar 40 anos tenho vivenciado muitas transformações, quebrado muitos paradigmas e tudo está convergindo para um estilo de trabalho e de vida mais leve e com tempo para fazer aquilo que realmente me conecta às minhas crenças e valores. É incrível como quando direcionamos nossas energias para os nossos objetivos o universo conspira a favor.

Um abraço, 

Simara Rodrigues


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