domingo, 1 de abril de 2018

Não sejamos negligentes no ato de educar.


Hoje, ao levar minha mãe em casa passei próximo ao local que um dia foi a escola onde concluí meu ensino fundamental e médio na década de 90. As lembranças, infelizmente, foram ruins, o que fez do trajeto de volta uma longa e reflexiva viagem. Senti uma tristeza, acalentada por profunda gratidão à Deus. 


Pensei sobre os reflexos de uma educação rasa e como pode ser nociva para a vida de um indivíduo. Lembrei-me dos professores que tive e das fatídicas disciplinas de exatas. Que prejuízo foi ter um professor, sem noção, lecionando do 6o ano do ensino fundamental até o ensino médio as disciplinas de matemática, física, química e pasme educação física. Suas aulas eram meramente decoreba. E o regime era do manda quem pode obedece quem tem juízo. Seria trágico se não fosse cômico. 

Tenho certeza que todos ainda hoje lembram desse professor. Ele era o mais popular, o "amigão", o "gente boa". Estava sempre rodeado de alunos que o achavam o máximo. Mas como professor, deixou muitas lacunas e prejuízos. Eu nunca reprovei, embora sempre tenha passado com notas medianas. Não tinha prazer em ir à escola. Via aquilo como uma etapa a ser cumprida. Minha mãe sempre dizia, tem que estudar para ser "alguém" na vida. Eu só não entendia como seria "Alguém" decorando aquilo. De qualquer forma, segui o fluxo sem nenhuma inspiração ou referência. Fiquei me perguntando se a escola ao menos cumpria um Projeto Pedagógico. 

Minha história acadêmica infelizmente não foi embasada por grupos de estudo, rodas de conversas, incentivo à leitura, projetos de leituras, visitas guiadas, incentivo à escrita científica... Oi?! Escrita científica? O que é isso? é de comer ou de passar no cabelo? 

O Resultado da educação que tive certamente contribuiu para os indicadores que conhecemos como analfabetismo funcional. Tornei-me uma adulta que lia mal, escrevia mal e consequentemente me comunicava mal. E claro, Os prejuízos refletiram na minha vida profissional. Quantos desafios enfrentei! 

Escrever um ofício, que aparentemente seria uma tarefa simples, era um verdadeiro pesadelo e acompanhado de repetidas devoluções por parte dos meus supervisores. Eles foram mestres na arte de ensinar, da paciência e empatia. Aprendi muito em cada feedback e também observando como faziam. Aqui fica uma dica de ouro: Tenha pessoas como modelo para aprender e crescer. 

Na faculdade tive que aprender a aprender. E na mesma época ao invés de ensinar meu filho, era ele quem me ensinava. Meu filho, ao contrário de mim, teve a oportunidade e o privilégio de estudar em ótima escola. Desde que engravidei, aos 18 anos, eu me comprometi em oferecer o melhor que pudesse a ele. Penso que esse foi o melhor e maior investimento que poderia ter feito. E essa decisão refletiu em muitos aspectos. 

Aprendemos juntos regras de português, cálculos matemáticos e aquelas fórmulas mirabolantes. E foi também meu filho quem me ajudou a desconstruir alguns bloqueios acerca da matemática. Já na minha segunda graduação eu precisei ressignificar e finalmente aprender sobre juros compostos, análise e raciocínio logico e após décadas, estas disciplinas deixaram de ser um bicho papão. Finalmente fiz as pazes com os números e entreguei um Trabalho de Conclusão de Curso lindo de viver e repleto de análises financeiras.  

Disciplinas como história e geografia, aprendi ao longo das viagens que realizei e livros que li. Uma visita ao Louvre, acompanhada do meu filho, que adora história, foi muito mais proveitosa que anos de ida àquela escola.

Não vejo meu relato como um fato isolado e ocorrido apenas na década de 80. Atuando na docência há dez anos reconheço muitos alunos e profissionais com a mesma carência, que ao longo dos anos foram sendo empurrados para a mera conclusão de protocolos e hoje pagam um preço alto do descaso na educação.  Afinal, o mercado não se compadece. 

Eu não os culpo por não saberem escrever um relatório ou escreverem uma resenha. O que não significa que apoio o vitimismo e o coitadismo de muitos. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu simplesmente me compadeço e procuro ajudar, fazendo o melhor que posso para aqueles que estão comprometidos. É muito fácil julgar o outro, sem antes conhecer a sua história. E o mundo está repleto de "achadores" de plantão, rápidos em apontar o dedo a partir de suas percepções e ideologias. Como bem disse Caetano "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". 

Outro dia uma aluna foi à coordenação agradecer por te-la ensinado a ler e escrever. Segundo ela "tomou gosto pelos estudos na Universidade". Essa aluna foi um dos meus maiores desafios pedagógicos e como me sinto feliz com o resultado. Desde sua chegada a semente foi plantada e eu desejo que ela colha bons frutos. 

É no meu ensino superior que guardo as melhores lembranças. Tive professores incríveis, que se destacavam entre aqueles que continuavam a negligenciar um ofício tão valioso. Educar e contribuir para a formação de indivíduos. Digo, contribuir e não terceirizar a responsabilidade. Isso porque essa é uma via de mão dupla, logo não há espaço para vitimismo. 

A melhor e mais grata lembrança é a profa. Ana Paula Miranda. A quem diga que não se aprende idiomas na Universidade. Eu aprendi e adorava suas aulas, sua didática, seriedade, integridade, coerência e paixão pela docência. Era uma das aulas que não perdia. Era notório sua habilidade em sala de aula. Nunca precisou ser popular ou a queridinha do curso, para ser referência na arte de educar. Professora séria, exigente e especialista em sua área e que todos respeitam. Basta perguntar a quem curso Secretariado Executivo na UPIS. Em 2008 tornei-me sua colega de profissão e que honra e inspiração foi trabalhar ao seu lado por sete anos. 

As lembranças de hoje reforçaram minha responsabilidade frente à docência e o legado que quero deixar. Não me apego à egos, não faço questão da senhoria muitas vezes exigida em sala e muito menos de subordinação, me chame de Simara, não me incomoda. E também não quero ser a "boazinha", a popular. O que eu quero mesmo é plantar o desejo ardente pelo conhecimento, pela busca, pela descoberta, pelo prazer em aprender. O poder que valorizo na educação está relacionado ao poder de quebrar paradigmas, barreiras e contribuir para o protagonismo. Independente de origens, classe social e opiniões. Meu foco não está nas experiências passadas mas no que pode ser feito daqui pra frente. 

Àqueles que desejam enveredar pelos caminhos da educação, meu carinhoso conselho: não sejam negligentes no ato de educar. Atuem com responsabilidade e conscientes que os reflexos de suas ações irão ecoar na vida de muitos indivíduos e no futuro de muitos profissionais. 

Parafraseando Paulo Freire concluo “não há docência sem discência” logo, “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.” por isso ensinar não deve ser uma mera transferência de conhecimento, mas a criação de “possibilidades para a sua produção ou a sua construção" uma vez que “ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, homens e mulheres descobriram que era possível ensinar.” 

Enfim, queridos leitores, aprender e ensinar são tarefas que exigem uma visão madura, altruísta e sempre reflexiva. Não há espaço para meros “depositantes” de conhecimento, de pessoas preocupadas com o palco e de egos inflados. É preciso atuar com coerência e amor, acima de qualquer interesse.

um abraço e uma ótima semana para todos

Simara Rodrigues 

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