domingo, 4 de março de 2018

Você estudou pra que?


A docência é uma caixinha de surpresa com muitas alegrias e desilusões, não à toa poucos se atrevem enveredar por este caminho.


Prestes a completar dez anos na docência, uma das maiores alegrias que tenho é conhecer pessoas e histórias e contribuir para o crescimento desses indivíduos. 

Reconheço que entre minhas habilidades está a capacidade de me relacionar. E é algo que valorizo como uma potencialidade, motivo pelo qual tenho me especializado na área de gestão de pessoas. Sinto verdadeira paixão em estudar comportamento e temas relacionadas. E é essa habilidade que permite uma relação muita próxima com meus alunos, que por vezes ultrapassa a sala de aula. 

Ao longo desses dez anos tenho contribuído para o desenvolvimento de quase mil pessoas. E de forma muito natural, acabo acompanhando a trajetória de muitos desses alunos. E o que percebo é que muitos estão realizados e felizes, colhendo os frutos daquilo que plantaram enquanto outros continuam às margens de suas lamentações e colecionando fracassos. É claro que fracassos fazem parte da jornada e contribuem para o nosso aprendizado, mas ninguém vive só de fracasso, é preciso ter o que comemorar e celebrar. É preciso fazer sentido. 

Outro dia uma ex-aluna queixava-se do mercado e da profissão. Suas lamentações iam dos baixos salários às funções exercidas por ela em sua pouquíssima passagem pelo Secretariado. 

Seu discurso era carregado de críticas, autoengano e despreparo. Ela julgava-se muito boa para realizar as funções que exercia, além de falar abertamente muito mal de seus pares e gestores. Ninguém era bom o suficiente em sua análise. 

Para ela, a gota d'agua era o fato de realizar atividades pessoais para o seu Executivo. Aquilo era um grande desrespeito e inadmissível em sua análise. "Simara, eu não estudei pra isso". 

Foi quando lhe perguntei: E você estudou para que?

Ela prontamente respondeu que estudou "para assessorar executivos e não executar funções simplistas de quem não tem escolaridade".

Faz alguns anos que esta aluna concluiu o curso e desde então continua fora do mercado, apesar de formação superior e fluência em outro idioma, o que aparentemente seria o necessário para atuar na área. 

Mas afinal, o que falta à esta Secretária Executiva? Sorte? Oportunidade? 

Eu diria, no caso dela, humildade, autoconhecimento e preparo. Ficou claro em seu discurso que não estava preparada para assessorar executivos. Ela realmente não estudou para isso. Sua prepotência não lhe permitia observar que suas Soft skills estão aquém de um profissional de secretariado. 

Sua imaturidade era tamanha que não lhe permitia enxergar como potenciava um aspecto diante de todas as outras oportunidades. Uma verdadeira perda de energia que, a partir de sua visão míope, potencializava tanto o assunto que passava o restante do dia de cara amarrada. 

Atuando como Secretária Executiva por quase duas décadas é claro que executei muitas tarefas pessoais, que iam desde o gerenciamento de conta pessoal ao legendário cafezinho. E meus alunos sabem disso, porque não é e não deve ser um tabu esse tipo de discussão, uma vez que não é o foco da nossa profissão. 

A assessoria de executivos, além de exigir habilidades técnicas e comportamentais, deve contar com a vivência e experiência. Não é o diploma quem elege um bom profissional, mas sua capacidade de fazer e ser o que alega ter estudado. Ou seja, não basta ter. Tem que ser.

Algumas pessoas acreditam que "estudar para x ou Y profissão" as eleva a um patamar de Senhoria, esperando que todos a sirvam e esquecem que um bom líder antes de delegar, sabe fazer. 

Lamento dizer, mas chegar nessa etapa da carreira vai exigir uma caminhada significativa ou será mesmo que as pessoas pensam que sucesso acontece da noite pro dia? Se duvida do que digo, basta pesquisar a trajetória de pessoas de sucesso. Sucesso da noite pro dia só existe na ficção.

Assessorar, vai muito além da sala de aula. Esta é a primeira etapa a ser cumprida. Logo, preparo, tempo, dedicação, humildade, capacidade de servir - que nada tem a ver com submissão - e objetivo definido são mandatórios. E não há atalhos. 

Minha dica de ouro é: Vamos potencializar aquilo que realmente faz sentido e está alinhado ao nosso objetivo. Quando a gente sabe o que quer e aonde quer chegar não há nada que nos paralise. E principalmente, seja sincero com si mesma (o) e tenha maturidade para reconhecer seus gaps. As empresas, é claro que não são todas, reconhecem um talento. Quando a gente consegue ampliar a lente e parar de "mimimi" é quando evoluímos, como profissionais e seres humanos.    

E você, tem estudo para que?

com carinho, 

Simara Rodrigues

10 comentários:

  1. Belíssimas palavras, professora. Melhotou muito o meu fim de Domingo!

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    1. Olá, fico muito feliz que tenha feito sentido. Um abraço

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  2. Nossa!! E o pior é que o mercado de trabalho tá cheio de "profissionais" como essa ex-aluna! Fico impressionada como eles ainda se mantém empregados. Sem dúvida, bora buscar o que faz sentido mesmo e parar de MIMIMI! Bjos

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    1. Olá Edite, isso mesmo...vamos focar no resultado, porque isso já um dá um bom trabalho, não é mesmo? abs,

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  3. Nossa, eu gosto muito dos seus textos! Conseguem ser profundos e sempre passam algum aprendizado positivo. Estava lendo "O Propósito" e a mensagem se assemelha muito as suas palavras. Estamos neste mundo para servir, não de modo subserviente como você mesma diz, e sim dar o nosso melhor para tornar esse mundo um pouco melhor... Bjos da sua admiradora de longe! Mariana Lima

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    1. Olá Mariana, que bom te-la por aqui e recebendo seu feedback tão carinhoso. Exatamente isso, estamos neste mundo para servir e fazer o melhor que pudermos,e assim, contribuir para um melhor e com pessoas mais felizes. Um abraço,

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  4. A forma que ela enxerga a profissão, explica perfeitamente o fato dela esta fora do mercado de trabalho, falar mau da profissão é fácil o difícil e exerce-la com qualidade. Lembro que quando em suas aulas falava sobre a "síndrome de hiena"... "o céus , o vida, oh azar, será que o problema esta realmente na profissão ou nos profissionais? vale a pena refletir ne ! beijão Si !

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    1. Nayara, excelente reflexão: O problema está realmente na profissão ou nos profissionais. Essa é uma inquietação constante minha. Saudades de você. :)

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  5. Feedback para toda a categoria! Muita gente querendo "chegar lá" por meio de atalhos - é uma jornada, um passo de cada vez ;)

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    1. Simone, exatamente. Toda jornada começa com um primeiro passo e somos nós quem decidimos qual será a reta final. Se é que existe. :)

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